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O Mistério da Vida

Meus pais já morreram. Meu pai morreu em 2016 , minha mãe este ano, em setembro. Ainda é muito recente o falecimento da minha mãe. Sinto como ela estivesse só viajando. Bem, não deixa de ser um viagem, só que sem volta, infelizmente.

Sempre tive a sensação que meus pais nunca iriam morrer, até que um dia eles morreram. Comecei a enxergar a morte por outro ângulo, diferente de como enxergava antes. Antes a morte era algo distante, mas era algo que me apavorava muito. Tinha medo de me separar dos meus pais, sentia uma dor dentro de mim só em pensar em não tê-los perto de mim.

Era o medo de ficar só no mundo, desprotegida. Era como a criança Miriam sentia e pedia à minha mãe e meu pai para eles nunca me deixarem. Passei um tempo antes da vida adulta, com um medo de perder meus pais, que ficava o tempo todo junto deles. Falava o tempo todo o medo que sentia, o que iria acontecer com minha vida se isso ocorresse. Não lembro das explicações que me davam, se conseguiam me convencer que tudo estava bem, que não era para eu ter medo. Lembro somente que este medo me consumia, me fazia chorar, me deprimia, clamava por explicações. Era como soubesse que um dia, não sabia quando, eles iriam embora, iriam me deixar sozinha neste mundo.

A sensação que tenho agora é que nasci de novo para outra vida e que a minha viagem , minha aventura continua e que a viajante solitária durante o percurso encontrará outra família em algum momento, em outro tempo .

Meus pais morreram aproximadamente com 90 anos. Talvez a idade avançada tenha sido uma preparação para as pessoas em volta aceitarem a ausência deles. Eles de uma certa forma foram se distanciando, se alienando dos problemas externos como estivessem sentindo o final que se aproximava.

Minha mãe falava que sentia que horizonte dela era curto, que não era da mesma maneira que via quando tinha vinte anos que o horizonte era distante. Ou como as pessoas dizem que tinha toda a vida pela frente.

Não gostava muito quando ela dizia isso, porque sentia que o agora era o mais importante e que tínhamos que aproveitar todos os momentos como se fossem eternos.

Lógico , quando criança, o futuro me apavorava. Era motivo de angustia. Olhava muito para o futuro, era como se o passado não existisse, nem o presente. Meus olhos estavam direcionados para o horizonte distante. O que me impelia a sentir a vida como uma aventura sem fim, a querer me aventurar no mundo.

No fundo acho que o medo de morrer talvez fosse deles , não meu . Que Só tinha assimilado intuitivamente de alguma forma os sentimentos deles. E que o medo de perder era deles, o medo de ficarem sós no mundo. O medo dos filhos irem embora e deixá-los . Nãos sei bem ao certo o que está por trás de tudo na vida, dos meandros do que se passa na mente das pessoas e da minha própria mente.

Do que está por trás dos medos e o que se esconde nestes medos.

E qual é meu medo hoje? A minha própria morte? Pelo menos agora sei ,com a morte dos meus pais, que meu corpo um dia perecerá e que também não farei mais parte deste mundo. Quer dizer , meu corpo permanecerá neste mundo, mas meu eu, tudo que é o meu ser , minha alma, meu espirito, minha personalidade, tudo isso se esconderá em algum lugar da vida.

Pai, mãe, onde vocês estiverem, quero que vocês saibam que estou com saudades e que a experiência que tive com vocês foi muito enriquecedora. E que se pudesse votar ao passado, iria aproveitar mais os momentos juntos.

Acho que fui a filha que mais sentiu a presença deles na vida , pois estive muito mais tempo com eles, meus outros irmãos saíram mais cedo de casa. E que tudo que passamos juntos, me fez o que sou hoje.

O amor que sentia e que me preenchia era tão infinito que não sentia vontade de outros amores , que a vida com eles já era suficiente de ser vivida.

Quantas alegrias, dores, tristezas de ficar longe, de se separar, quantos momentos doces , tanta paz, tanta proteção, tanto tudo. Certamente a felicidade era nosso amor. Mas a vida exige mudança. E mudança pode ser dolorosa, muitas vezes.

Mas mesmo que desejamos que tudo permaneça como sempre, precisamos mudar, se transformar e continuar a jornada da vida.



The Mystery of Life


My parents are already dead. My father died in 2016, my mother this year, in September. My mother's death is still very recent. I feel like she's just traveling. Well, it is still a trip, only without return, unfortunately.


I always had the feeling that my parents would never die, until one day they died. I started to see death from another angle, different from how I did before. Before, death was something distant, but it was something that terrified me a lot. I was afraid of separating from my parents, I felt a pain inside me just thinking about not having them close to me.


It was the fear of being alone in the world, unprotected. It was how the child Miriam felt and asked my mom and dad to never leave me. I spent time before adulthood, with a fear of losing my parents, who was with them all the time. I talked about the fear I felt all the time, what would happen to my life if it happened. I don't remember the explanations they gave me, if they managed to convince me that everything was fine, that I wasn't supposed to be afraid. I only remember that this fear consumed me, made me cry, depressed me, cried out for explanations. It was like I knew that one day, I didn't know when, they would leave, they would leave me alone in this world.


The feeling I have now is that I was born again to another life and that my journey, my adventure continues and that the lonely traveler along the way will meet another family at some point, at another time.


My parents died at about age 90. Perhaps old age was a preparation for people around them to accept their absence. In a certain way they were distancing themselves, alienating themselves from external problems as if they were feeling the end that was approaching.


My mother said that she felt that her horizon was short, that it was not the same way she saw when she was twenty years old that the horizon was distant. Or how people say I had my whole life ahead of me.


I didn't like it very much when she said that, because I felt that now was the most important thing and that we had to enjoy every moment as if it were eternal.


Of course, as a child, the future terrified me. It was anguish. He looked to the future a lot, it was as if the past did not exist, nor the present. My eyes were on the distant horizon. What impelled me to feel life as an endless adventure, to want to venture into the world.


Deep down, I think the fear of dying might have been theirs, not mine. That he had only intuitively assimilated their feelings. And that the fear of losing was theirs, the fear of being alone in the world. The fear of children going away and leaving them. I'm not really sure what's behind everything in life, the intricacies of what's going on in people's minds and in my own mind.


What is behind the fears and what is hidden in these fears.


And what is my fear today? My own death? At least now I know, with the death of my parents, that my body will one day perish and that I will no longer be part of this world. I mean, my body will remain in this world, but my self, everything that is my being, my soul, my spirit, my personality, all of that will hide somewhere in life.


Father, mother, wherever you are, I want you to know that I miss you and that the experience I had with you was very enriching. And that if I could vote for the past, I would enjoy the moments together more.


I think I was the daughter who most felt their presence in life, as I spent much more time with them, my other brothers left home early. And that everything we went through together, made me what I am today.


The love that I felt and that filled me was so infinite that I didn't feel like other loves, that life with them was enough to be lived.


How many joys, pains, sorrows of being away, of separating, how many sweet moments, so much peace, so much protection, so much everything. Certainly happiness was our love. But life requires change. And change can be painful, often.


But even if we want everything to remain as usual, we need to change, transform and continue the journey of life.

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