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A Noite Escura da alma

Atualizado: 5 de jan. de 2021

Na visão poética de São João da Cruz


Por Sérgio Carlos Covello




A "noite escura da alma" é metáfora de uma experiência mística que envolve paradoxo, porque essa experiência é iluminativa e , no entanto, obscurece a consciência e acarreta sofrimento.

Para extrair sentido dessa contradição , faz-se necessário examinar o rico simbolismo da noite no imaginário dos povos.

Entre os mitos gregos, Noite é o nome da deusa que personifica as trevas superiores e é representada por uma figura feminina envolta em manto escuro, a percorrer o céu, enquanto seu irmão , Érebo, simbolizava as trevas inferiores. A deusa Noite gerou várias divindades, algumas benéficas, outras maléficas, sendo a mais importante delas o Dia (Hêmera), a divindade que trouxe a luz ao universo.

Também na Tradição judaica, a noite apresenta ora um aspecto negativo, ora um aspecto positivo. No Gênesis, ela denomina as trevas, sendo inferior à luz: "E viu Deus que a luz era boa, e fez separação entre a luz e as trevas. Chamou Deus a Luz, Dia e as trevas, Noite (1.4-5)" Em outras passagens, porém, a Bíblia ressalta o aspecto positivo da noite. Por exemplo, em Jó 35.10, lê-se que "Deus inspira canções de louvor durante à noite." A noite é, portanto, o momento da inspiração divina. E em salmos, 19.2, a noite relaciona-se com a sabedoria : "Uma noite - diz o salmista - revela conhecimento à outra noite". Não por outra razão a coruja , pássaro notívago , representa , de longa data, a filosofia, simbolizando o saber e a clarividência.

Na arte poética, a noite é geralmente evocada como o período propício ao romance, pois, cessadas as atividades laborativas do dia, o ser humano pode ir livremente em busca do outro. Neste caso, a noite exerce fascínio : "Tudo tem suave encanto quando a noite vem", diz uma canção de amor. Na esfera psíquica , a noite significa a face oculta da consciência, o inconsciente, que , durante o sono , geralmente à noite, vem à tela mental através de símbolos que expressam não só os desejos, mas também a sabedoria, a criatividade e as mais belas intuições.

Na Teologia mística, a noite foi aos poucos adquirindo o sentido de estado de consciência com relação à Divindade, a eterna Incógnita escondia metaforicamente no manto negro da noite. "Deus habita as trevas" - dizem os místicos, porque nunca ninguém conseguiu ver Deus, e tudo o que sabemos sobre Ele são conceitos humanos. O homem presume que existe uma causa inteligente para o universo e a chama de Deus, atribuindo-lhe qualidades humanas (como a bondade, a justiça e a misericórdia). Cria, assim, Deus à sua imagem e semelhança. A teologia mística , ao contrário da teologia especulativa (baseada em conceitos e teorias ), objetiva um conhecimento experimental - a posse interior de Deus pela contemplação que implica o despojamento do ego, visando à união da alma com "aquele que está além de todo ser e de todo saber". A esse estado de despojamento os místicos alemães do século 14 chamaram de "noite escura" , express